segunda-feira, 23 de junho de 2008

She's gone.


Eu nunca tinha lidado com a morte de ninguém próximo. Conheci meu avô paterno um, dois dias antes de ele morrer e na época eu era muito nova pra entender, então foi normal, à medida que uma morte pode ser lidada normalmente por uma criança.
Ano passado quando descobriram o câncer no rim da minha avó, não contei pra ninguém, eu falava pra mim mesma que ia dar tudo certo e realmente deu. Ela tirou um rim e durante o processo pós-operatório ficou muito fraca, mas depois voltou pra casa e consequentemente pra vida de sempre (com menos sal).
Aí esse ano, no último domingo que ela fez janta pra mim, cheguei lá na casa dela e ela já tava reclamando de uma dor muito forte no joelho. Na manhã seguinte (segunda-feira), ela foi internada, porque a dor se tornou insuportável. Foram feitas punções no joelho por causa da artrose. As pernas estavam muito inchadas, a circulação estava muito ruim por causa da sobrecarga em cima de um rim só e o nefrologista foi negligente, nem foi no hospital vê-la (isso porque o seguro de saúde dela é o mais caro). Fui lá passar o dia com ela em um domingo e essa foi a última vez que a vi. O estado dela foi piorando cada vez mais e a transferiram pra UTI na segunda. No dia que eu planejava visitá-la na UTI, a sedaram.
Desde que me entendo por gente ela falava ‘Ah, mas essas dor só sara quando juntar as perna de vez!’, “baiana arretada” que era. Pra mim ela era e vai ser sempre eterna, porque não existe minha vida sem a vida dela. Não existe dia de domingo sem a comida dela (a melhor do mundo por sinal). Às vezes parece que nada aconteceu e que domingo continua sendo o dia de ir jantar na Vovó Beth. Foi surpreendente como consegui ser tão indiferente toda vez que minha mãe chegava com uma notícia pior durante esse tempo em que ela esteve doente. Eu simplesmente não sabia, nem queria lidar com aquela situação, vê-la tão mal e frágil, ela que sempre fez tudo por mim, por todos.
Fico imaginando como deve ser pra um ateu lidar com a morte de alguém. Eu, como espírita, tento vibrar pra que ela fique bem, pra que ela esteja numa colônia espiritual legal acompanha de espíritos legais. Pra minha dindinha, que é católica, ela deve ter ido pro Céu falar com São Pedro pra ver se ela podia entrar lá e viver feliz pra sempre com meu avô até o dia do Juízo Final, ou algo do tipo. Mas e pra quem não acredita em nada? A sensação de “Cabô o mi, cabô a pipoca.”/ “Game over” / “It’s over” / “This is the end, beautiful friend, the end.” / “The End” deve ser insuportável. Quando penso que nunca mais vou poder abraçá-la, não nessa vida, dá um nó na garganta muito fudido, contudo ainda me resta a esperança de vê-la em outros planos. Agora pra quem não acredita em um encontro pós-vida, seja lá qual for sua natureza, o adeus é (deve ser) doloroso demais.
Minha primeira palavra foi ‘Foffó!’, quando ela tava trocando minha fralda.

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Estou certa de que esse é um bom título

Muito mais do que as chamadas bases da sociedade (igreja, Estado, família...), o que nos mantém firmes são as certezas. Como uma questão de esperar que tudo saia de acordo com o esperado, nossos pontos de equilíbrio são aquelas idéias que temos como fato imutável, inalterável, inabalável. O que inevitavelmente nos remete à idéia de que ‘quem não espera, não se decepciona’, porque quando esse porto-seguro sucumbe no meio da areia, a sensação de desnorteio é muito grande.
Perder uma certeza é um pé no saco. É aquela feridinha que arde, mas você continua cutucando e a dorzinha está sempre ali lhe incomodando. É como ficar horas olhando pro horizonte, meio que pensando em nada, meio que pensando ‘e agora?’.
Queremos sempre estar certos. De que você vai passar e não vai cair de período, de que seu marido não lhe chifrará, de que você terá um futuro próspero e feliz propaganda-de-margarina lifestyle, de que você formará e ganhará dinheiro, de que aquela pessoa querida que está doente vai melhorar e tudo voltará a ser como era antes, de que vai dar pra chegar à tempo, de que você vai conseguir emagrecer, de que ninguém descobrirá aquele seu segredinho embaraçoso, de que não lhe abandonarão quando você mais precisar, de que algumas pessoas se importam com você e lhe acham legal, de que sua mãe lhe ama e lhe acha bonito (porque se nem ela acha isso, DESISTE!).
Ficar sempre esperando o pior também não dá. Partindo dessa premissa ninguém faz nada. “Ah, se não vai dar certo, vou nem tentar!”. As mesmas certezas que vão embora sem falar tchau são as mesmas que nos motivam a seguir em frente.
E a gente fica assim... vivendo e esperando – sempre esperando... - não ter acordado com o pé esquerdo. (De onde tiraram essa expressão?)