Eu nunca tinha lidado com a morte de ninguém próximo. Conheci meu avô paterno um, dois dias antes de ele morrer e na época eu era muito nova pra entender, então foi normal, à medida que uma morte pode ser lidada normalmente por uma criança.
Ano passado quando descobriram o câncer no rim da minha avó, não contei pra ninguém, eu falava pra mim mesma que ia dar tudo certo e realmente deu. Ela tirou um rim e durante o processo pós-operatório ficou muito fraca, mas depois voltou pra casa e consequentemente pra vida de sempre (com menos sal).
Aí esse ano, no último domingo que ela fez janta pra mim, cheguei lá na casa dela e ela já tava reclamando de uma dor muito forte no joelho. Na manhã seguinte (segunda-feira), ela foi internada, porque a dor se tornou insuportável. Foram feitas punções no joelho por causa da artrose. As pernas estavam muito inchadas, a circulação estava muito ruim por causa da sobrecarga em cima de um rim só e o nefrologista foi negligente, nem foi no hospital vê-la (isso porque o seguro de saúde dela é o mais caro). Fui lá passar o dia com ela em um domingo e essa foi a última vez que a vi. O estado dela foi piorando cada vez mais e a transferiram pra UTI na segunda. No dia que eu planejava visitá-la na UTI, a sedaram.
Desde que me entendo por gente ela falava ‘Ah, mas essas dor só sara quando juntar as perna de vez!’, “baiana arretada” que era. Pra mim ela era e vai ser sempre eterna, porque não existe minha vida sem a vida dela. Não existe dia de domingo sem a comida dela (a melhor do mundo por sinal). Às vezes parece que nada aconteceu e que domingo continua sendo o dia de ir jantar na Vovó Beth. Foi surpreendente como consegui ser tão indiferente toda vez que minha mãe chegava com uma notícia pior durante esse tempo em que ela esteve doente. Eu simplesmente não sabia, nem queria lidar com aquela situação, vê-la tão mal e frágil, ela que sempre fez tudo por mim, por todos.
Fico imaginando como deve ser pra um ateu lidar com a morte de alguém. Eu, como espírita, tento vibrar pra que ela fique bem, pra que ela esteja numa colônia espiritual legal acompanha de espíritos legais. Pra minha dindinha, que é católica, ela deve ter ido pro Céu falar com São Pedro pra ver se ela podia entrar lá e viver feliz pra sempre com meu avô até o dia do Juízo Final, ou algo do tipo. Mas e pra quem não acredita em nada? A sensação de “Cabô o mi, cabô a pipoca.”/ “Game over” / “It’s over” / “This is the end, beautiful friend, the end.” / “The End” deve ser insuportável. Quando penso que nunca mais vou poder abraçá-la, não nessa vida, dá um nó na garganta muito fudido, contudo ainda me resta a esperança de vê-la em outros planos. Agora pra quem não acredita em um encontro pós-vida, seja lá qual for sua natureza, o adeus é (deve ser) doloroso demais.
Minha primeira palavra foi ‘Foffó!’, quando ela tava trocando minha fralda.
Ano passado quando descobriram o câncer no rim da minha avó, não contei pra ninguém, eu falava pra mim mesma que ia dar tudo certo e realmente deu. Ela tirou um rim e durante o processo pós-operatório ficou muito fraca, mas depois voltou pra casa e consequentemente pra vida de sempre (com menos sal).
Aí esse ano, no último domingo que ela fez janta pra mim, cheguei lá na casa dela e ela já tava reclamando de uma dor muito forte no joelho. Na manhã seguinte (segunda-feira), ela foi internada, porque a dor se tornou insuportável. Foram feitas punções no joelho por causa da artrose. As pernas estavam muito inchadas, a circulação estava muito ruim por causa da sobrecarga em cima de um rim só e o nefrologista foi negligente, nem foi no hospital vê-la (isso porque o seguro de saúde dela é o mais caro). Fui lá passar o dia com ela em um domingo e essa foi a última vez que a vi. O estado dela foi piorando cada vez mais e a transferiram pra UTI na segunda. No dia que eu planejava visitá-la na UTI, a sedaram.
Desde que me entendo por gente ela falava ‘Ah, mas essas dor só sara quando juntar as perna de vez!’, “baiana arretada” que era. Pra mim ela era e vai ser sempre eterna, porque não existe minha vida sem a vida dela. Não existe dia de domingo sem a comida dela (a melhor do mundo por sinal). Às vezes parece que nada aconteceu e que domingo continua sendo o dia de ir jantar na Vovó Beth. Foi surpreendente como consegui ser tão indiferente toda vez que minha mãe chegava com uma notícia pior durante esse tempo em que ela esteve doente. Eu simplesmente não sabia, nem queria lidar com aquela situação, vê-la tão mal e frágil, ela que sempre fez tudo por mim, por todos.
Fico imaginando como deve ser pra um ateu lidar com a morte de alguém. Eu, como espírita, tento vibrar pra que ela fique bem, pra que ela esteja numa colônia espiritual legal acompanha de espíritos legais. Pra minha dindinha, que é católica, ela deve ter ido pro Céu falar com São Pedro pra ver se ela podia entrar lá e viver feliz pra sempre com meu avô até o dia do Juízo Final, ou algo do tipo. Mas e pra quem não acredita em nada? A sensação de “Cabô o mi, cabô a pipoca.”/ “Game over” / “It’s over” / “This is the end, beautiful friend, the end.” / “The End” deve ser insuportável. Quando penso que nunca mais vou poder abraçá-la, não nessa vida, dá um nó na garganta muito fudido, contudo ainda me resta a esperança de vê-la em outros planos. Agora pra quem não acredita em um encontro pós-vida, seja lá qual for sua natureza, o adeus é (deve ser) doloroso demais.
Minha primeira palavra foi ‘Foffó!’, quando ela tava trocando minha fralda.